Além-Mundos, ser escritor de YA e a síndrome do impostor

Já está nas livrarias o novo livro do autor americano Scott Westerfeld. Além-Mundos, publicado pela Galera Record, pode ser chamado de “metalivro”: é um livro sobre livros, o ofício de fazê-los e escrevê-los. Mas também é um livro que contém outro livro dentro.

Na história conhecemos Darcy, uma jovem de dezoito anos que recebeu um gordo adiantamento para publicar o primeiro volume de sua série Além-Mundos, escrito durante 30 dias no mês de novembro (alguém mais lembrou do NaNoWriMo?). Tudo parece um golpe de sorte: ela conseguiu escrever a história rápido, foi aceita por uma grande agente literária com facilidade e fechou um contrato cheio de zeros pelos dois primeiros volumes. Darcy decide adiar a entrada na faculdade e se mudar para Nova York, onde o mercado editorial e os escritores estão, onde as coisas acontecem.

Ao mesmo tempo que acompanhamos essa nova fase na vida da garota, também lemos seu livro: um romance entre um garoto inspirado num deus veda e uma menina que vai parar no além-mundos após um ataque terrorista. À medida que Lizzie, personagem que Darcy criou, vai crescendo em seu universo, aprendendo coisas novas sobre seus poderes recém-adquiridos e amadurecendo, o mesmo acontece com sua criadora em Nova York.

Mas não estou aqui para falar sobre o livro. Quer dizer, estou sim, mas não vim exatamente falar sobre a história, mas sim sobre ser escritor. Especialmente escritor de YA.

Eu tinha a mesma idade que Darcy quando assinei o contrato para a publicação do meu primeiro livro. Aos dezoito anos e recém-saída da escola, eu experimentei a mesma coisa que a protagonista: eu me sentia uma farsa. Imogen, uma das personagens do livro, define bem ao chamar de síndrome do impostor. De acordo com a Wikipédia – juro que não a uso como fonte nas minhas histórias -, pessoas que sofrem dessa síndrome “parecem incapazes de internalizar os seus feitos na vida. Não importando o nível de sucesso alcançado em sua área de estudo ou trabalho, ou quaisquer que sejam as provas externas de suas competências, essas pessoas permanecem convencidas de que não merecem o sucesso alcançado e que de fato são nada menos do que fraudes“.

Me sentir uma fraude não é exatamente uma novidade. Me senti assim quando entrei para a faculdade dos meus sonhos sem estudar, fui contratada na minha primeira (e única) entrevista de estágio e efetivada antes mesmo de terminar a faculdade. Esse é um sentimento que me acompanha, parte da minha baixa autoestima, parte por nem sempre acreditar no que está acontecendo.

Eu consegui publicar com relativa facilidade. Minha história de publicação não é repleta de negativas e cartas de recusa, nunca precisei pagar para publicar. Também nunca ganhei um adiantamento gordo como Darcy – nunca ganhei um adiantamento, ponto final. Mas, dentro do mercado editorial brasileiro, não pagar para publicar e ser aceita pela primeira editora é algo muito difícil. O hábito de leitura não é comum entre a população e editoras geralmente fecham as contas do mês com um certo aperto, então um caminho aberto como o que eu tive pode ser considerado por muitos um “golpe de sorte”.

Mas encontrar uma editora é apenas a ponta do iceberg nessa vida editorial. Se você quer ser escritor, especialmente escrevendo para o público jovem-adulto, vai acabar percebendo que essa é a parte mais fácil de todas. E não digo isso só pela minha experiência, mas sim baseada na de outras pessoas que tiveram caminhos bem diferentes dos meus.

Quando lancei meu primeiro livro, passei quase um ano sem acreditar que realmente tinha publicado alguma coisa. Eu olhava para o livro e ele parecia mais um na minha estante, não conseguia entender que era meu e agora aquele encadernado me colocava no meio do seleto grupo que eu havia construído na cabeça, o grupo intocável dos escritores, que para mim sempre foram heróis sem capa. Demorou até entender que eu era uma escritora e não tinha problema algum em responder isso, mesmo que ser escritora não pague minhas contas.

Então eu percebi que a dificuldade em ser escritor vai além. Mais difícil que encontrar uma editora é encontrar um público. Não adianta nada encontrar alguém que te publique se você não tem quem leia o que escreveu. E esse público precisa ser constantemente alimentado, cultivado. Você também precisa fazer contatos, comparecer a eventos, dar a cara a tapa. Às vezes, vai chegar numa sessão de autógrafos e ninguém vai aparecer. Vai ter que ouvir gente dizendo que amou seu livro, o que é ótimo, mas também vai ter quem diga que achou uma porcaria. Mas é melhor que digam alguma coisa do que nada.

De seis em seis meses, você vai entrar em desespero esperando o relatório de vendas. E vai ficar feliz e também meio desesperada. Será que é um bom número? As vendas decaíram do último semestre, o que eu faço? As vendas estagnaram, como eu crio mais leitores? Será que a editora vai publicar meu próximo livro?

Você começa a se preocupar com coisas além da escrita e às vezes isso é uma droga. Quando eu comecei, assim como a Darcy, eu pensei que escrever era o suficiente. Mas não é. Você pode até ter um “golpe de sorte” no início, mas se sua carreira continua ou não, é um conjunto de esforços homéricos e torcer para que alguém te note no meio da multidão.

A cada dia, eu preciso me reinventar. Eu sento e escrevo as histórias que fluem da minha mente, mas também atualizo minhas redes, organizo minha agenda, negocio coisas com minha agente e com a editora, disparo e-mails para feiras literárias e escolas, preparo minha mala e me enfio em algum canto do país onde nunca estive. Não é só por querer que um dia eu sente na minha mesinha e os leitores venham até mim por vontade própria, mas sim por essa vontade avassaladora que eu tenho de transformar isso na minha única vida.

Por mais difícil que seja tentar um lugar ao sol, eu não me imagino fazendo outra coisa. Hoje eu já não me sinto uma impostora. Eu conheço o trabalho diário que faço para transformar meu sonho em realidade. Tudo que eu quero é que um dia esse sonho possa ser meu único trabalho.

Ainda que um escritor pareça muito sortudo, ele guarda uma história de todos os obstáculos que precisou enfrentar para chegar até onde está. O “paraíso YA” – leia o livro, você vai entender – só existe na nossa cabeça, nem mesmo um escritor famoso vive em um mar de rosas. Mas a vida real de um escritor tentando seu futuro pode ser uma espécie de paraíso – é só não esquecer de ver o lado bom de tudo, mesmo nos piores momentos.

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