As mil noites

Vi “As mil noites” na livraria quando estava à procura de “A Fúria e a Aurora”. Dias depois, procurando o que ler no Kindle, acabei encontrando o e-book com desconto e resolvi ler. E me apaixonei.

“As mil noites” é inspirado em “As mil e uma noites”, uma fonte da qual os autores de Young Adult têm bebido bastante ultimamente. Além disso, a autora é arqueóloga e fez pesquisas de campo no deserto por quatro anos, o que a deixou mais próxima do cenário principal que ela constrói em sua história.

A premissa aqui é a mesma do conto de Sherazade: Lo-Melkhiin é um bom rei para o seu povo, ao contrário do seu pai, mas há algo de estranho com ele. Anos atrás, quando voltou do deserto e curou sua mãe de uma enfermidade, ele já não parecia mais o mesmo. Quando se casou pela primeira vez, fez-se uma grande festa. Mas a esposa morreu na noite de núpcias. Isso aconteceu diversas vezes, até o povo começar a notar e temer. Céticos e sacerdotes foram ao rei e, juntos, chegaram a um consenso: quando uma nova rainha morresse, Lo-Melkhiin não poderia voltar à mesma tribo ou acampamento para buscar uma esposa. Precisaria partir para a próxima.

É então que entra nossa protagonista, da qual não sabemos o nome. Aliás, exceto por Lo-Melkhiin e alguns pouquíssimos personagens – como um dos céticos e o escultor –, nenhum nome é revelado ao longo da trama. Foi proposital e a questão é tão bem feita que só notei que a protagonista não tinha um nome ao ler os agradecimentos.

Aquela que vai se tornar rainha é, na verdade, uma sombra da sua irmã. Ela e a irmã andam juntas por todo o canto, fazem tudo que podem lado a lado. Nossa protagonista sempre imaginou sua vida casando-se com alguém da mesma família que o marido de sua irmã, para viverem juntas para sempre. Sua irmã é radiante e, apesar de serem muito parecidas, embora filhas de mães diferentes, a outra se destaca. Só que quando Lo-Melkhiin aparece em seu acampamento para buscar uma esposa, a protagonista pede que a mãe de sua irmã a arrume como vestiria a própria filha. Ao encontrar o rei, ele a escolhe por se destacar entre as outras e a toma como esposa.

É então que começa a parte mais interessante: a rainha agora precisa se manter viva. As antigas esposas não duraram muito mais que dois ou três dias no qasr, mas ela está disposta a quebrar esse ciclo. Precisa se manter viva o máximo que puder, com medo que Lo-Melkhiin volte para desposar sua irmã ou faça mais vítimas. Ela conta histórias ao rei, mas há algo diferente: todas as noites, eles compartilham uma espécie de poder. A rainha tem visões com sua irmã orando por ela, como se fosse uma deusa menor. E a cada dia, ela fica mais forte – e sua sobrevivência parece um milagre.

Esse é um livro diferente. A autora trabalha com mitologia árabe, mas não especifica nome de criaturas ou qualquer outra coisa. Ela deixa tudo muito aberto para o leitor, que vai criando as figuras e situações em sua mente. O que poderia ser uma falha é, na verdade, um recurso narrativo usado por ela.

Uma das coisas que a rainha mais faz ao longo do livro é tecer. Em alguns momentos, ela entra em transe e tece tramas vívidas, bordando acontecimentos que ela visualiza enquanto realmente acontecem. Ler esse livro é um pouco parecido com essas visões da personagem: conforme as palavras se agrupam e os mistérios se formam, me senti tecendo a trama junto com a autora, agregando significado à obra e enxergando vividamente o que acontecia aos personagens.

Ela explora ciência, magia, mitologia e religiosidade. Seu mundo fantástico é criado através de uma narrativa poética e personagens que transbordam. Eu senti o amor da rainha por sua irmã, a fúria da sua família, a frustração do artesão e o desespero do rei aprisionado. Amo também como ela demonstra a força das mulheres que são menosprezadas, como é através delas que a resistência se fortalece.

É um livro sobre o poder do desejo, uma fantasia muito bem amarrada e repleta de surpresas. Ela bebe da fonte dos contos árabes, mas não se amarra a eles – o livro segue um rumo totalmente imprevisível conforme ela narra e o leitor, curioso, fica ávido para acompanhar até o final.

Eu li esse livro muito rápido. Não conseguia parar de acompanhar a história, pois queria saber o que acontecia aos personagens e como todas as pontas seriam amarradas. É um livro único, o que é ótimo. Há dois narradores principais, além de outro que narra o epílogo. A princípio, não sabemos muito bem quem é o primeiro narrador, mas a cada passagem e divisão em que ele toma as rédeas da história, descobrimos mais sobre ele – e sobre a trama, no geral. A maior parte do livro é narrada pela rainha.

É uma adaptação repleta de originalidade. Eu fiquei encantada com o final. Embora algumas pessoas tenham achado corrido, eu gostei da forma como ele se desenrola e, principalmente, o que a protagonista cria através de seu poder e como ela passa a mensagem de que é do deserto que surgiram lendas, conhecimentos e criaturas míticas que alimentam a humanidade até hoje. Não é um livro de aventura, cheio de lutas e espadas. É um livro sobre o poder do pensamento, da fé e do amor. Se você espera um grande romance ou batalhas épicas, passe longe. O clima aqui é outro. E era exatamente o clima que eu não esperava, mas estava precisando.

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